domingo, 15 de maio de 2011

Flor amarela

Jean-Paul Bournet
Você surgiu, não sei ao certo de onde ou quando, nem por que. Mas certamente deve se lembrar daquela flor amarela que surgiu em nosso caminho quando procurávamos o amor. Lembra-se bem da cor? Um amarelo pálido, castigado... Nós paramos, olhamos... E a deixamos a apreciar delicadamente os outros participantes daquela estranha caminhada sem destino...
Sei que você voltará a cruzar por tais caminhos.
Sei que sentir-se-á inclinada a esquecê-la e pisá-la... Mas peço-lhe que não faça tal coisa!
Seja você de onde for, venha de onde vier, traga consigo a flor amarela que achou no caminho... Não a pise, não a maltrate, não a despreze nem jogue fora.
Não m’a dê, se assim o desejar, mas guarde-a para si mesma. Olhe-a profundamente. Descubra-a com muita paciência. Ame-a como sentir-se-ia capaz ao encontrar sua reservada paixão... Mas não a beije, no entanto, que ela murchará!
Sim! Não se espante com o que eu disse. Não! Não quis ofendê-la, - sinceramente! Mas não a beije... Ela detesta demonstrações de muito carinho. Ela não resistiria a sua paixão!
Repouse-a em um simples copo com água, mas tempere o líquido com sinceridade e amor... Despeje o conteúdo em um frasco de amizades sinceras e humildes. Misture-o ao odor amargo de grandes saudades... Nesse vaso ela florescerá, com certeza, dando muito mais vida ao seu imenso mundo de fantasias... Ela renascerá e abandonará o materialismo mundano de nossas sofridas e desgostosas vidas... Ela viverá como nenhum de nós e estará tão liberta como nós já fomos, um dia, no ventre materno...
Ame-a e repouse-a em um colchão de penas macias. Deixe-a repousar por deliciosos momentos ao seu lado. Dê a ela o carinho que dispensou aos que a cercaram.
Entregue-a depois à guarda do amor que existiu um dia... Deixe-a então comigo, e parta novamente para o seu destino...
Siga pela estrada que cobre o verde... Siga sem mágoas, vá sem receios... Suas ilusões estarão bem guardadas comigo. Serei então o guardião de sua felicidade! Estarei onde você sempre me encontrou... Mas com a missão de cuidar eternamente dessa sua ilusão. Vá sem medo. Siga sem rancor.
Aos primeiros passos pela nova estrada tenha em sua mente a forma da flor. Lembre-se que era amarela, pense no perfume que exalava... Aos poucos sua mente saudosa estará cônscia do mal que desejou e aplicou sem sequer se dar conta  do que fez... Aos poucos suas ilusões estarão abaladas pelo rufar de coléricos tambores.
Suas alegrias estarão dissipadas pelo rugir de feras imaginadas... Mas vá assim mesmo. Não esmoreça diante da ilusão do real. Siga contente pelo caminho da luz. Siga com amor o traçado da sinceridade, se o encontrar.
Peça pela luz, peça pela vida, peça pelo amor. Vá e continue a pensar... Continue a viver... Continue a sofrer...
Mas antes de ir aceite essa outra flor. Não é amarela como a outra, mas sim vermelha. Permaneça a ela ligada, como se a mim tivesse revelado a sua paixão... Pense em nosso único encontro como se arrancasse suas pétalas aos poucos... Sinta saudades... Sofra também... Estarei de posse da flor amarela... Nunca se esqueça disso... Mas vá...

(Todos os conteúdos desse BLOG estão registrados pelo autor, Jean-Paul Bournet, e fazem parte de seu próximo livro: "Devaneios adolescentes")

domingo, 8 de maio de 2011

Hora de pensar

Jean-Paul Bournet
Por vezes surge a hora de falar. Por vezes chega a hora de calar.
É importante concluir, examinar, pesquisar, embaralhar, imaginar... Mais importante ainda quando conseqüências gerariam conflitos, discussões, desentendimentos... Importante também saber calar, modificar-se, emudecer...!
Evitar os problemas, evitar confrontos, viver, falar então, naturalmente, friamente... Com poucas palavras, alguns gestos... Alguns movimentos de boca e de mão...
Ouvir. Simplesmente ouvir... Sentir... Amar... Pecar. Seguir os ensinamentos do pecado... Pecar os ensinamentos do ouvir. Idéias inseridas em suas cabeças de modo a formar estilos de vivência... Procedimentos únicos na certeza de estarem corretos... Corretos com o mundo, com a vida... Incorretos com a mente, com os instintos, com o homem...
Calar pela vida imaginando o poder de ser alguém... O poder de ser a própria vida... O desejo de vencer a luta da eternidade do espírito... O naturalismo insignificante de um amor desejoso e materialista...
São os defeitos de um mundo vazio de glórias... Os defeitos quase qualidades de seres envolvidos pela fragrância de flores curtidas por um sol colorido. Cores que despertam para a vida de um dia e adormecem ao deparar com escuridões de noites sem palavras...
São palavras. São dúvidas que se incorporam em letras e sons, modulando a sintonia do pensamento, formando acordes de qualidade entre sons de exuberante sinfonia...
Os minutos de nossos procedimentos como humanos que somos, sendo analisados por nós mesmos, alcançando punições mentais de validade mais significantes que quaisquer outras... Somos uma pequena partícula de nosso próprio mundo.
Hora de falar... Falar sem usar palavras... Falar com a mente aberta... Desviando dos caminhos muito diretos... Floreando as situações diretas...
Hora de sentir. Hora de não mais esconder os sentimentos sempre presentes nos momentos mais reais, mais significantes... Mas momentos... Hora de ser aquilo que realmente somos.
São muitos os minutos necessários. São eternos os instantes a serem aproveitados. Tudo é uma só vida rodeada por vidas de milhares de outros seres. Tudo é uma necessidade de ser gostado, de ser admirado, de ser amado e desejado...
Tudo é falha. Tudo é esperança... Tudo é vida. São seres, mundos, momentos, decepções... Tudo são palavras, letras, tinta... E papel.
 (Todos os conteúdos desse BLOG estão registrados pelo autor, Jean-Paul Bournet, e fazem parte de seu próximo livro: "Devaneios adolescentes")

domingo, 1 de maio de 2011

Jardim

Jean-Paul Bournet
- Linda rosa essa. Você a cuida?
- Não. Cuidei até há pouco. Tive que abandoná-la. No entanto...
- No entanto?
- Pretendo tratá-la de longe. Será mais difícil, talvez, mas não me custa tentar.
- E a margarida? Também lhe pertence?
- O jardim inteiro, na verdade. Muitas das flores não sabem disso, mas costumo passar grandes e intermináveis momentos cultivando-as, dando-lhes vida, tratando-as com amor.
- Inclusive o cravo?
- Inclusive o cravo.
- Parece-me dócil... É verdade?
- Na aparência, sim. Na realidade sua delicadeza e seu modo de proceder não são dos mais autênticos...
- Não entendi ainda por que você deixou o jardim!
- Não o deixei para sempre. Pelo contrário. Estou procurando em outros campos e planícies conhecimentos e meios para melhorar o meu pedaço de terra. Minha intenção é simples, mas pura. O sacrifício que farei deverá ser compensado mais tarde com o que de melhor eu puder fazer pelas flores.
- Você não tocou na margarida. Há alguma razão especial?
- Sim. Ela é muito nova e frágil. Não agüentaria certas ilusões. O cravo sofre, mas não se rende. A rosa se defende com lágrimas...
- Flores choram?
- E bastante! Você não tem um jardim?
- Não gosto de muito trabalho. Sinto que se perde muito tempo da vida revolvendo a terra, regando as plantas, adubando o terreno, tratando, podando...
- Você terá o seu, esteja certo! Todos os têm um dia. A natureza é, por demais, sábia e não abandonaria um jardineiro ao relento. Se você não percebeu, todos nós somos jardineiros, inclusive as flores.
- Não me confunda. Estou surpreso!
- Minha rosa tem o seu jardim, e eu faço parte dele. Minha margarida terá o seu, e com árvores seculares! O cravo expande o seu a cada momento, embora seu gosto varie de dia para dia...
- E as árvores? Estão na sua parte?
- Fazem parte do meu pedaço. E por falar nelas, responda-me com sinceridade: das árvores que você observa qual a de melhor aparência?
- Consigo ver três de um bom tamanho quase no alto da colina. Duas quase juntas, e o terreno em sua volta parece bem árido. A outra, um pouco mais afastada, me parece bem vistosa.
- Boa observação. Você ainda entenderá a razão do árido terreno junto às duas primeiras.
- Ah! Consigo ver mais algumas! Não são grandes, mas parecem mais novas.
- Todas são antigas. Quando nasci todas elas eram vivas. Meu conhecimento com as duas do alto é bem antigo. Mas o amor que sinto pela terceira é bem maior. Não sou de demonstrar diferença no tratamento, porém tenho sido traído pela consciência e isso me causa dissabores...
- Parece-me que vai chover. Aquelas nuvens carregadas estão se aproximando muito depressa.
- Sim, vai. Vamos aproveitar para deixar o jardim. Darei uma última olhada por certo tempo. Você vem comigo?
- Acompanho-o.
- Então sigamos em frente. Espero que na minha ausência todos saibam se tratar convenientemente. Caso contrário o trabalho no regresso será muito árduo.
- Vamos?
- Sim. Adeus, meu pedaço de terra!

(Todos os conteúdos desse BLOG estão registrados pelo autor, Jean-Paul Bournet, e fazem parte de seu próximo livro: "Devaneios adolescentes")

domingo, 24 de abril de 2011

Tarde de emoções

Jean-Paul Bournet
Era tarde... Tarde repleta de hinos e vozes... Tarde envolvida pelo correr de crianças, jovens, todos... Alegrias, correrias, diversões ordenadas... Era tarde...
Nos imensos salões o ambiente normal e já bastante conhecido... Cheirava a antigo. As amplidões dos ginásios como que se entregavam aos que desejassem fazer de seu tempo o aproveitar de uma vida saudável.
Fim de uma tarde cansativa e bem aproveitada... Fim de um momento igual ao de todos os dias!
Dessa vez o sol ajudava o mundo! Seu calor emprestava vida... Sua luz se entregava... Seus raios se perdiam...
Ao atravessar o pequeno pátio gramado que separava os prédios, um só pensamento surgiu em minha mente: aproximava-se o momento mais aguardado, mais desejado, mais presente... Era o intervalo que aparecia... Pequeno intervalo entre os esportes e o jantar.
Intervalo de minutos que se transformava em tortura de milhares de anos! Intervalo que, por si só, valia pela razão de viver! Intervalo em que o coração dava saltos, a mente rodava em turbilhões, os pensamentos se dirigiam em uma só direção, e meus passos, lentos pelo cansaço dos exercícios, levavam-me inconscientemente ao mesmo local.
Subi os primeiros degraus... Lentamente, para não ser ouvido... Parei no terceiro, espreitando a vinda de alguém.
Subi mais alguns que rangiam... Velhos que eram... Uma porta semi-aberta com um pedaço de papel por baixo – era o sinal. Abri-a e entrei.
Assoalho que rangia a cada passo... Era um martírio!
Cuidadosamente alcancei o corredor superior do prédio. Bastante abandonado por sinal. Sentia-se abandono pelo clima...
Por vezes senti-me seguro ali. Outras vezes os ruídos que ouvia criavam em mim um estado de medo de ser descoberto.
Outra porta... A última... Entrei com cuidado. Encostei-a procurando impossibilitar uma espreita alheia... Pura inocência! Se alguém, porventura, surgisse nada conseguiria impedir a abertura de tão velha e encarquilhada porta de madeira.
O quarto... Vazio. Vazio de móveis, vazio de lustres, vazio de quase tudo... Alguns cobertores velhos jogados pelo chão. As janelas, cobertas por tábuas pregadas, permitiam a invasão de raios de luz pelas mínimas frestas. Eram resquícios da tarde... Tarde que aos poucos se alongava pelo dia...
Meu coração já batia mais forte a partir do momento em que subi o primeiro degrau. Agora, dentro do quarto, ele parecia querer disparar!
Foi no instante em que confirmei a presença que eu mais desejava.
Foi então que ambos paramos. Lembro-me que ficamos imóveis e sem palavras, como costumava acontecer. Por alguns momentos procuramos ouvir sons denunciadores... Mas não ouvimos.
Bem longe reconheci as vozes dos outros que em brincadeiras diversas, procuravam aproveitar a folga da tarde.
Um pouco de alívio, mas a tensão aumentou. Uma lata de refrigerante aberta... A outra ainda fechada aguardava a minha chegada... Não nos lembramos de abri-la. Não queríamos perder mais um só minuto.
Meu coração disparava por nada... Ou por tudo... E eu me aproximei. Dessa vez senti mais forte do que nunca o sentimento que já me era conhecido!
Sentei-me ao seu lado. Sem dizer uma só palavra olhamo-nos bem fundo nos olhos... Era o momento em que nos identificávamos em quase tudo.
Havia sido uma aventura o chegar até ali, assim como estávamos alimentando uma perigosa aventura cada vez que tornávamos mais forte nosso relacionamento.
Um gole do refrigerante, como se fosse apenas para molhar os lábios. A latinha trocou, então, de lábios. Meu gole foi mais intenso... Tensão...
Os fracos raios de sol que, filtrados pelas frestas das madeiras da janela conseguiam penetrar no quarto, dava brilho em seus lábios e um colorido todo especial ao seu corpo. Eu amava aquele corpo...
Hoje nossos olhares iam mais longe...
Sem palavras nós dois nos entediamos e nos comunicávamos, fazendo dessa tarde a mais importante de todas.
Estávamos prontos para nos entregar um ao outro.
O receio de amassar e sujar nossas roupas fez com que delas nos livrássemos com cuidado. Dava vontade de tirar e jogar tudo fora de uma só vez e rápido, mas o medo de mostrar sinais do pecado fez com que tivéssemos todo o cuidado. Colocamos as roupas com muito cuidado por cima de um dos cobertores.
Estávamos nus. Livres das roupas do mundo... Protegidos dos olhares invejosos e incriminadores... Livres...
Estávamos prontos para tudo, ávidos de fortes emoções, desejando nada menos do que o outro por inteiro!
Nossos olhares se olhavam, se fundiam em um só. Nossas mãos se tocavam levemente na medida em que o corpo inteiro iniciava a procura do outro.
Em nossos outros encontros procurávamos evitar, a todo custo, atitudes que viessem a marcar o final de uma longa procura. Avançávamos sem que alcançássemos o termo final.
Hoje tudo me pareceu mais difícil. Nossos olhares se olhavam diferente... Nossas mãos se sentiam mais atraentes... Os corpos e as mentes se desejaram demais para que uma voz do consciente evitasse o nosso avanço.
Era quase fim de tarde. Lançamo-nos enfim ao domínio um do outro e os momentos que se sucederam foram alvos de expansão de sentimentos.
Sua pele muito macia, corpo ainda bastante jovem; descobrimos aos poucos os prazeres mais escondidos... As regiões mais sensíveis, as emoções mais reais...
O tempo lutava contra nós! Avançava mais que o normal, levando tão bela tarde e trazendo o início da noite.
O escurecimento das frestas não nos perturbou. Estávamos agora lado a lado, mãos entrelaçadas, corpos se tocando levemente.
Havia sido a primeira vez que sentíamos a profundidade de um amor completo. Havíamos alcançado juntos os momentos de maior satisfação no amor. Sentíamos como se lançados fossemos em agradáveis e suaves ondas de um imenso oceano... Sentíamo-nos brincando em um veloz e inimitável balanço da natureza.
Foi a primeira vez que chegamos a tal ponto. Foi o momento da descoberta do que sempre procurávamos. Foi o revelar de uma verdade escondida e proibida... Era o aparecer da vida... O surgir do amor... A descoberta do prazer...
A escuridão nos alcançou e acordamos desse sonho de olhos abertos. Era hora de estarmos longe dali! Chegara a hora de estarmos novamente junto aos outros!
Um beijo prolongado ainda sobre as cobertas... Um abraço que se negava a terminar... Mas era chegado o instante da volta.
Vestimos as roupas silenciosamente, evitando denunciar nossa presença e para tentar ouvir possíveis ruídos... Iniciamos a descida.
Os degraus pareciam, agora, diferentes. As portas e as paredes mais alegres e felizes... O medo normal de ser descoberto parecia não mais existir.
O próprio prédio aparentava ser mais novo e conservado... Mas na realidade tudo era como antes... Nós é que havíamos mudado...
Ao entrarmos na sala de jantar, a mesa já estava posta.  Alguns olhares pareciam estar querendo dizer algo... Talvez fosse impressão... Talvez fosse verdade...
Mesa posta... Dois lugares vagos... Sentamo-nos. O ambiente era de festa... O jantar era de festa...
Da cabeceira veio o brinde. Brinde pelo meu aniversário. No centro da mesa, quinze velas se espetavam em um bolo...
Olhei em seus olhos... Seus olhos me olharam... Devemos ter corado, não sei... e jantamos...

(Todos os conteúdos desse BLOG estão registrados pelo autor, Jean-Paul Bournet, e fazem parte de seu próximo livro: "Devaneios adolescentes")