domingo, 1 de maio de 2011

Jardim

Jean-Paul Bournet
- Linda rosa essa. Você a cuida?
- Não. Cuidei até há pouco. Tive que abandoná-la. No entanto...
- No entanto?
- Pretendo tratá-la de longe. Será mais difícil, talvez, mas não me custa tentar.
- E a margarida? Também lhe pertence?
- O jardim inteiro, na verdade. Muitas das flores não sabem disso, mas costumo passar grandes e intermináveis momentos cultivando-as, dando-lhes vida, tratando-as com amor.
- Inclusive o cravo?
- Inclusive o cravo.
- Parece-me dócil... É verdade?
- Na aparência, sim. Na realidade sua delicadeza e seu modo de proceder não são dos mais autênticos...
- Não entendi ainda por que você deixou o jardim!
- Não o deixei para sempre. Pelo contrário. Estou procurando em outros campos e planícies conhecimentos e meios para melhorar o meu pedaço de terra. Minha intenção é simples, mas pura. O sacrifício que farei deverá ser compensado mais tarde com o que de melhor eu puder fazer pelas flores.
- Você não tocou na margarida. Há alguma razão especial?
- Sim. Ela é muito nova e frágil. Não agüentaria certas ilusões. O cravo sofre, mas não se rende. A rosa se defende com lágrimas...
- Flores choram?
- E bastante! Você não tem um jardim?
- Não gosto de muito trabalho. Sinto que se perde muito tempo da vida revolvendo a terra, regando as plantas, adubando o terreno, tratando, podando...
- Você terá o seu, esteja certo! Todos os têm um dia. A natureza é, por demais, sábia e não abandonaria um jardineiro ao relento. Se você não percebeu, todos nós somos jardineiros, inclusive as flores.
- Não me confunda. Estou surpreso!
- Minha rosa tem o seu jardim, e eu faço parte dele. Minha margarida terá o seu, e com árvores seculares! O cravo expande o seu a cada momento, embora seu gosto varie de dia para dia...
- E as árvores? Estão na sua parte?
- Fazem parte do meu pedaço. E por falar nelas, responda-me com sinceridade: das árvores que você observa qual a de melhor aparência?
- Consigo ver três de um bom tamanho quase no alto da colina. Duas quase juntas, e o terreno em sua volta parece bem árido. A outra, um pouco mais afastada, me parece bem vistosa.
- Boa observação. Você ainda entenderá a razão do árido terreno junto às duas primeiras.
- Ah! Consigo ver mais algumas! Não são grandes, mas parecem mais novas.
- Todas são antigas. Quando nasci todas elas eram vivas. Meu conhecimento com as duas do alto é bem antigo. Mas o amor que sinto pela terceira é bem maior. Não sou de demonstrar diferença no tratamento, porém tenho sido traído pela consciência e isso me causa dissabores...
- Parece-me que vai chover. Aquelas nuvens carregadas estão se aproximando muito depressa.
- Sim, vai. Vamos aproveitar para deixar o jardim. Darei uma última olhada por certo tempo. Você vem comigo?
- Acompanho-o.
- Então sigamos em frente. Espero que na minha ausência todos saibam se tratar convenientemente. Caso contrário o trabalho no regresso será muito árduo.
- Vamos?
- Sim. Adeus, meu pedaço de terra!

(Todos os conteúdos desse BLOG estão registrados pelo autor, Jean-Paul Bournet, e fazem parte de seu próximo livro: "Devaneios adolescentes")

Um comentário:

  1. Nossa! Nunca tinha lido uma coisa tão bela, como esse lindo texto.

    Parabéns! Continue assim nunca desista de seus objetivos,vá em frente não ligue para o que as pessoas dizem ou pensam de você,faça de conta que essas pessoas se tornaram seus fãs e não querem largar de seu pé.

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